segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Racionalmente Emocional

          Nas profundezas da incerteza da minha realidade irreal, dou por mim a contemplar a importância paradoxal do que me rodeia. O que aparenta ser importante não o é, e o que aos demais nada importa é o que realmente interessa. Esta disparidade de perspectivas, movida apenas pela capacidade de uma empatia lógica, leva apenas a que haja uma frustração constante em diálogos e demais interacções sociais onde esta conexão antitética é mais que evidente.

            Uma vez mais, tudo se resume à impulsividade derivada de um estado emocional sobre-desenvolvido, onde todas e quaisquer construções e interpretações são distorcidas e desprovidas total ou parcialmente de qualquer interpretação lógica, resultando numa interacção potencialmente despropositada e consequentemente desconfortável.

            Tudo mais não passa de um equívoco, de uma falha no suposto complexo padrão de interpretação de um diálogo com pelo menos um locutor e um receptor. Um equívoco que pode muito bem ser resolvido, bastando apenas que haja uma predisposição em abdicar de forma mais consistente das tendências emocionais.

            Apesar da disparidade, da aparente discordância perante a capacidade de sentir, é importante referir que a mesma continua a ser importante. Contudo, e como nas mais variadas áreas e assuntos, tal tem que ser medido e contido, de forma a que discursos lógicos e coerentes não sejam gravemente prejudicados apenas porque um dos intervenientes se deixou influenciar pela sua tendência natural de sentir.

            Houve, há e continuará a haver lugar para tudo, principalmente para uma ponderação lógica nesta realidade longe de utópica onde sentir é mais vezes um obstáculo que a solução.

domingo, 19 de novembro de 2017

As fundações do ódio

           O ódio, tal como qualquer outra emoção, em toda a sua subjectividade, não é algo inacto, não é algo que surge da imensidão do nada. Tal como qualquer outra emoção, o ódio é incutido, é despoletado. O indivíduo em questão tem que observar algo que, pela sua forma de ser, desencadeará como resposta, ódio. Tudo não mais é que uma simples acção-reacção.

            Quanto à acção em si, independentemente daquilo que possa ser, tem um factor comum: ou é algo feito por alguém, ou algo que faz parte desse mesmo alguém. Duas distinções que, ao fim e ao cabo, são apenas faces opostas da mesma moeda.

            Na nossa forma de ser, na nossa forma de trabalharmos ansiedade, prontamente aprendemos que nem sempre nos é permitido ser quem somos, pelo que, em vez disso, devemos assumir um papel que, no máximo dos máximos, pode incluir traços da nossa verdadeira personalidade. Nesse mesmo desempenho, muito fica escondido do observador descuidado, nomeadamente interesses pessoais e acessos associados ao papel que se desempenha. Posto isto, a representação decorre, com essas mesmas acções a terem lugar, ocultas ou à vista de toda à gente, e é só uma questão de tempo até que alguém veja para além da ilusão, e no meio da desilusão e frustração, sinta uma insuportável onda de ódio.

            Se ódio é a reacção, então à acção é a desilusão e a frustração que se tem o prazer de se observar. Desilusão porque há uma realização face à mentira que até então era tida como verdade única e absoluta, e frustração porque não há nada que se possa fazer para contrariar o que aconteceu.

            Com isto, a acção aconteceu e despoletou uma reacção. Contudo, a reacção não dura somente no momento. Toda ela é uma constante que perdura até que não haja mais uma razão para continuar a odiar, o que por sua vez pode implicar toda uma série de vertentes, desde contrariar a acção que começou tudo, ou deixar que o ódio leve a melhor.

            O ódio em si é uma chama e, como a chama que é, necessita de combustível para se sustentar. Na ausência de novos episódios, irá forçar o seu hóspede a recordar o momento em questão e a avivar-se no processo. Perante esta situação, cabe ao hóspede ser capaz de encontrar uma alternativa, ou simplesmente sucumbir à chama.

            O ódio é natural na sua génese, sendo uma das partes obrigatórias na imperfeição da condição humana, e apesar de destrutivo, quando controlado, pode ser uma ferramenta valiosa. Quando o controlo é assegurado, o hóspede não arderá. Já o mesmo não se pode dizer do que o rodeia, ou daquilo que mais lhe interessa.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Quando a criação o exige

           Quando a criação o exige, ela acontece e nasce. Não interessa o que possa estar entre ela e a sua vinda, tal simplesmente acontecerá. Todos e quaisquer problemas desvanecem, permitindo que a mente possa estar apenas focada neste propósito que agora lhe é único e absoluto, pois nada é mais importante que a criação.

            Quando a criação o exige, nenhuma incapacidade, seja ela física ou emocional, é válida. Perante a iminente chegada da criação, o corpo cansado desperta e o corpo ferido sara, podendo somente retornar a estas condições ultimamente prejudiciais quando a criação está concluída.

            Quando a criação o exige, apenas ela importa. Ela ordena, e o corpo segue. Ela dita, e a mente obedece. E quando alguma oposição é feita, ela simplesmente consome o responsável pela mesma e curva-o perante a sua vontade.

            Quando a criação o exige, ela existe. Independentemente da circunstância, será apenas uma questão de tempo até que tal aconteça, pois a vontade da criação tem vontade própria, total e absoluta sobre o corpo, a mente e a alma.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Semi-consciência

            Com o passar do tempo dei por mim a aperceber-me da curiosa forma como as palavras aparentam surgir. Apesar de por vezes ser realmente necessário intervir, forçando-as a organizarem-se como é suposto, noutras, algo bastante peculiar tem lugar.

            Em inúmeros contextos, em que as ideias estão absolutamente presentes, elas nascem e crescem no papel de uma forma natural, como se fossem elas a tomar a iniciativa por detrás de todo o processo. Quando tal tem lugar, a minha consciência dispersa-se, ficando eu total ou parcialmente alheio ao que se passa à minha volta e ao que está a ser escrito diante de mim. A este estado, chamo-lhe estado de semi-consciência, e enquanto ele decorre, apenas as palavras e a história que elas querem contar interessam.

            É um estado e um processo que me faz questionar o tipo de controlo que detenho sobre o trabalho em questão. Enquanto que por vezes me vejo a escrever pela necessidade de escrever, noutras tudo flui naquilo que poderia apenas ser descrito como todo o meu ser não ser mais que um fio condutor entre a ideia e a sua criação.

            Algumas personalidades já se assumiram como escravas das suas criações, e embora eu sinta que existe uma política de concordância entre mim e as minhas, não consigo deixar de pensar que por vezes elas querem algo mais. E, muito sinceramente, ainda bem que assim é.

            Todo o processo é belo, desde a ideia que do nada surge, que é prontamente trabalhada tanto consciente como inconscientemente e que começa a ser desenvolvida por ela própria apenas para a minha consciência regressar e ver que tudo está concluído.


            O que quer que isto realmente seja, é uma excelente forma de trabalho e, uma que tenciono manter. Desde que me permita decidir como tudo fica, estou disposto a aceitar as respectivas condições. Desde que não se desenvolva nenhuma dependência, não haverá problema.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Respira

Inspira e sente as cinzas.
Deixa o seu ardor
Consumir o teu interior.
Aproveita este raro momento
Que surge com alento
Numa altura de caçadores e presas.

Respira e deixa o negrume entrar,
Percorrer e viver,
Crescer e plantar
A semente que te irá fazer recordar
A vida que um dia se irá perder.

Deixa-as fluir
Como as chamas que te rodeiam.
Deixa-as viver,
Como a ti deixaram.
Deixa-as morar,
Para manter o que te recordaram.

Aceita o teu destino.
Aceita a sua fatalidade.
Aproveita cada momento, digno,
Fiel à realidade,
Pois tal como das cinzas virás,
A elas tornarás.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Pulsar

De dor o meu coração padece
Ao saber do que disseste,
De que tudo não passava de uma ilusão,
De que tudo foi em vão.

Entristece-me profundamente,
Acreditar seriamente
Nesta tenebrosa verdade
De que agora já é tarde.

Sinta-se o que se sentir,
Venha o que tiver que vir,
Seguir-se-á em frente
Com um pulsar intermitente.

Fica apenas sabendo
Que as palavras, leva-as o vento,
E que o inexistente coração
Assim o é desde então.

Nada mais
Me enerva de proporções tais,
Como este odiar
Por detrás do desejo de te amar.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Realização

           Sempre me disseram que os olhos eram o espelho da alma. Que através destes estranhos globos era possível ver a verdadeira natureza daquilo que nos move e daquilo que somos. Durante muito tempo dei por mim a acreditar nisso tudo, e admito que ainda acredito… de certa forma.

            Grande parte da minha vida foi passada a encarar os outros como livros abertos. Os seus maneirismos, as suas formas de ser e de estar, e principalmente os seus olhos diziam-me tudo aquilo que eu queria saber… tudo e muito mais.

            Todos não somos mais que uma compilação de segredos mais ou menos bem guardados. Enormes livros até, que podem muito bem ficar escondidos numa qualquer prateleira durante tempo incerto.

            Toda esta metodologia fascinava-me e movia-me. Fazia aquilo que gostava e era bom nisso. Quantos podem dizer o mesmo? Contudo, o humor sarcástico do destino decidiu pregar-me das suas e virar este meu talento contra mim. A quantidade de casos que me passavam para as mãos chegou a ser demasiada ao ponto de me provocar um esgotamento. Nenhuma mente consegue processar tamanha informação em tão pouco tempo e permanecer sã. A realidade distorceu-se e eu dei por mim a perder-me nela.

            O pior aconteceria não muito depois, quando estava perdido ao ponto de a realidade que agora tinha diante de mim, parecer a realidade real. Movido por mãos que já foram minhas, tomei os olhos que já foram meus como forma de, com sorte, voltar a ser eu… e posso dizer que consegui.

            Tudo voltou ao que era. Pelo menos a realidade em si. Quanto ao resto… mudou por completo. Deixei de ter livros para ler, pois não tinha olhos para o fazer. Foi um choque ao início. Aquilo que mais gostava de fazer foi-me tirado, de todas as pessoas, por mim mesmo. Mas se houve algo que realmente me marcou, foi a realização do que aquela expressão realmente significava. O espelho de algo não o representa, e no meu caso em concreto, face às reacções que todos os meus restantes sentidos vieram a contemplar, a minha alma é do mais horrendo que se pode ver.