segunda-feira, 21 de abril de 2014

Lágrimas Vermelhas

Aprendemos a viver cada momento
Como se fosse único e perfeito,
Mas de dor não fica isento
Aquele que fica com o sonho desfeito.

Viver ao sabor do vento
Pairar sob o calor do sol
Apenas para que, com o tempo,
Ser colhido por um doentio anzol.

Colhidos, desprovidos de felicidade,
Embebidos em depressão,
Rodeados por falsidade
E destruídos por dentro, ficando sem coração.

Não adianta ter pena,
Nem prolongar o sofrimento.
O melhor a fazer é tornar a alma serena,
Domá-la e acalmar o seu Inferno.

Instantaneamente, a vida ganha uma nova cor,
Ou melhor, a perda de várias,
Porque agora a dor tem sabor
E consegue ser saciada através das várias escumalhas.

Simplesmente se passa a apreciar
Todo o mal em todo o seu esplendor,
Tanto por na nossa essência se criar,
Como também noutros se abater como um faminto predador.

Está claro o mal das acções,
Mas e quanto às palavras?
Claras são também as razões
Que defendem que elas não são nada calmas.

Um corpo partido pode ser curado,
Mas o mesmo não pode ser dito
De um espírito que foi quebrado
E que se convenceu de que está perdido.

Longo e tortuoso é esse caminho,
Cheio de obstáculos colossais
E sem qualquer sentido,
Apenas para nos fazer crer que não passamos de animais.
E animais nos tornamos.
Frios e calculistas ficamos,
Algo longe de humanos,
Mas ainda assim humanos.

Sentir tornar-se uma palavra estranha,
E chorar faz-lhe companhia,
Pois nenhuma lágrima se apanha
No deserto que se tornou esta vida.

Contudo, há necessidade de se expressar.
As palavras ajudam e muito,
Pois são elas que ficam a chorar,
Ou pelo menos parece-lo é o seu intuito.

Mas até ela fazem sacrifícios,
Ou melhor, os mesmos são precisos
Para que elas cumpram os seus objectivos
E não bloqueiem em momentos indecisos.

Aqui estou, com um novo corte no braço,
Aproveitando o líquido que escorre,
Calmamente, para o papel que abraço,
E que espera que eu o decore.

Sentir não se sente,
Apenas existe a “desesperada” tentativa.
No fim só se mente,
E espera-se pela respectiva medida punitiva.

Que tudo corra pelo melhor.















Ass: Daniel Carvalho


sexta-feira, 18 de abril de 2014

          A lua-cheia já ia alta, e iluminava-o a ele e ao bar de dois andares de que lhe tinham falado. Era uma autêntica espelunca, mas ainda assim, conseguia ter algum movimento e ele sabia que ela estava ali, sob pesada segurança.
            Saiu do beco de onde estudava o local, e avançou. A luz tremida do candeeiro que tinha à sua frente acabou por morrer assim que passou por baixo dele, e tal despertou o olhar curioso dos dois brutamontes que guardavam a entrada. Repararam numa silhueta que se aproximava, mas não lhe conseguiram ver a cara, esperaram mais um pouco, até que viram um sorriso animalesco… mais uns passos, e reconheceram quem era. Sacaram das pistolas que tinham atrás das costas, mas no momento em que as apontaram, já ele estava demasiado perto. Avançou em corrida, segurando um punhal em cada uma das mãos cobertas por cabedal, e num simples e rápido gesto, degolou o da esquerda. Quanto ao outro, desferiu-lhe um pontapé na barriga que o projectou contra a parede, apenas para ver o seu crânio trespassado por outro punhal.
            Contemplou a sua obra por instantes, uma poça de sangue no chão, proveniente da garganta cortada de um corpo ainda com espasmos, o mesmo sangue que lhe tinha sido espirrado por cima do ombro direito do casaco. Ainda segurando o pescoço do outro, contemplou o ar aterrorizado no seu rosto, agora coberto pelo sangue proveniente do golpe que lhe tinha sido feito no meio dos olhos.
            Retirou o punhal e deixou o corpo estender-se no chão. Fê-los rodopiar uma vez pelos seus dedos, e avançou até à porta. Inspirou fundo e enfiou-lhe a sua bota direita, arrancando-a pelas dobradiças dada a força do impacto. Avançou calmamente para dentro do bar, debaixo de ruído e do olhar dos clientes e dos seguranças. Estes, e até mesmo o bartender, apreçaram-se a servir-se das suas fiéis armas, e ele prontamente respondeu. Os seus punhais voaram na direcção das cabeças dos dois seguranças que estavam ao fundo, mesmo ao lado das escadas que levavam ao próximo andar, e não falharam o alvo. O bartender apontou-lhe a caçadeira de canos cerrados que tinha escondida debaixo do balcão à cabeça, mas não conseguiu premir o gatilho a tempo. Ela foi-lhe puxada das mãos, e a sua cabeça atirada violentamente contra o balcão, apagando-lhe os sentidos. As únicas duas balas foram desperdiçadas em outros dois seguranças, atirando-os pelas janelas do lado esquerdo, e acertando de raspão nos clientes descontrolados que procuravam a tudo o custo desviar-se das balas que voavam e manter-se vivos.
            Ele deixou cair a caçadeira e retirou das suas costas duas pistolas, dando início é um bélico tiroteio enquanto ele avançava sem medo das balas que pareciam temer acertar-lhe, culminando num bar agora decorado com cadáveres, paredes esburacadas e cobertas de sangue e pedaços de cérebro. Perante os restantes presentes aterrorizados, ele falou enquanto recuperava o fôlego e carregava as armas, deixando escapar o tom de voz de um verdadeiro animal:
            - Se querem viver, a porta é ali, mas não vou esperar por ninguém.
            Eles obedeceram, e aos tropeções fizeram o que lhes era possível fazer para conseguirem sair dali. No meio daquele barulho todo, ele apercebeu-se de passos acelerados vindos do andar de cima e em direcção às escadas. Encostou-se à parede e esperou. Não tardaram a aparecer mais dois seguranças armados, um atrás do outro, dado o quão estreita era a passagem por aqueles degraus em cotovelo. Retirou um pedaço de arame farpado do interior do seu casaco, e com ele envolveu o pescoço do último, apertando-o o mais que podia, cravando-lho bem fundo na carne. O barulho que fez chamou a atenção do outro, que se virou apenas para ver o arame a ser puxado, abrindo e trazendo agarrado a ele parte do pescoço daquele que era o seu amigo de infância, sendo-lhe projectada contra a cara uma grande quantidade de sangue, cegando-o temporariamente. Levou as mãos à cara para tentar limpar os olhos, e ele também se apreçou. Largou o corpo, e tomou a pistola que o outro tinha deixado cair para se limpar. Agarrou-a pelo cano, saltou para cima dele, e debaixo dos seus gritos de misericórdia, desferiu-lhe coronhadas, uma e outra e outra vez, até que acabou por lhe esmagar o crânio.
            Levantou-se, com o coração bater aceleradamente por força de toda aquela adrenalina, e avançou para as escadas, subindo-as lentamente, mas de forma a que percebessem de que ele se aproximava. Ele já ia a meio, e já lhe era possível ver onde ela estava, sentada num luxuoso sofá, nos braços dele, e cara afundada no seu ombro.
            Chegou ao topo, e mais um veio na sua direcção, segurando uma faca. Um olhar bastou para que ele hesitasse, mas não chegou a parar. Ele agarrou-lhe o braço que empunhava a faca, puxou-o na sua direcção, ajustou a faca, e lançou-a contra ele, perfurando-lhe o crânio pela base do maxilar.
            Ela tremia descontroladamente enquanto o outro lhe afagava as costas e lhe dizia que tudo ia correr bem. Contudo, aquele carinhoso abraço tinha que acabar, tal exigia a situação. Levantou-se e avanço na sua direcção:
            - Achas que podes vir aqui destruir aquilo que me custou a construir e sair impune?
            - Eu já vos tinha avisado.
            - És uma aberração e não mais que isso. Ela está muito melhor comigo.
          - Ela era a única pessoa que acalmava o monstro que vive em mim, e ela sabia bem disso. Tudo o que aconteceu e vai acontecer esta noite é apenas culpa vossa.
            - Seu…
            E sem terminar a frase lançou-lhe um soco de direita que lhe acertou em cheio na cara e que o fez recuar alguns passos. Já movido pela confiança de conseguir fazer algo que mais ninguém naquela noite conseguiu, avançou, sem aquilo que mais devia ter… medo. Ele recompôs-se e lançou-lhe um olhar que o fez gelar por dentro, agarrou-o pela nuca, e puxou-o na sua direcção, apenas para que pudesse cobrir-lhe o pescoço com os seus dentes, fazendo-o soltar um grito agonizante, silenciando-o assim que lhe arrancou um bocado da sua carne, apenas para a cuspir para o chão logo de seguida.
            Ela olhou-o através dos seus cabelos loiros enquanto ele limpava o sangue que lhe escorria pela boca.
            - Por favor, desculpa – pediu ela, tentando afundar-se o sofá enquanto ele se aproximava.
            - Em tempos era capaz de perdoar, mas não agora. Estou farto.
            - Por… favor – soluçava ela.
            - A única coisa que eu vou lamentar esta noite – disse, enquanto a tirava do sofá e a sentava numa cadeira – é não ser capaz de te fazer sentir a dor e o tormento porque me fizeste passar.
            - Eu lamento… imenso – disse ela, sabendo que não podia fazer nada para se salvar – desculpa-me!
            Ele segurava agora uma corda que encontrara pelo caminho, e com ela amarrou-a à cadeira.
            - Não era a minha intenção.
            - Todos devemos pagar pelo mal que fizemos, e tu, ao contrário do que possas pensar, não és mais que ninguém.
            Avançou até à faca com que tinha sido ameaçado inicialmente enquanto ela chorava. Removeu-a do crânio em que repousava e avançou até ela. Começou a fazer-lhe pequenos cortes nos braços, pernas, rosto, pescoço, costas e barriga, de forma quase indolor dada a sua precisão, mas ela não tardou a sentir todas essas feridas a transformarem-se numa só que a percorria de uma ponta a outra. A garrafa de whisky que tinham enxertado foi derramada por cima dela, e ela sentiu o ardor do álcool em contacto com o sangue, transmitindo-o num arrepiante grito e contorcendo-se na cadeira enquanto o líquido escorria por ela abaixo.
            Ele foi despejando o resto da garrafa pelo resto do andar, e quando ela ficou vazia, deixou-a cair, partindo-se assim que tocou no chão. Avançou até ela, que ainda digeria aquele choque, agarrou-a pelos cabelos e levantou-lhe a cabeça. Olhou o seus olhos azuis sem demonstrar qualquer expressão, e disse:
            - Vemo-nos no Inferno.
            Tais palavras fizeram-na recomeçar a chorar.
            - Por favor… não! – suplicou ela.
            Ele nada disse. Avançou até às escadas e quando lá chegou, sacou de um isqueiro e exibiu-o.
            - Não! – continuou ela – POR FAVOR, NÃO!
            Ele acendeu o isqueiro, e deixou-o cair. Criando uma gigantes chama que não se tardou a propagar por todo o espaço.
            Desceu as escadas e abandonou o bar com as mãos nos bolsos e debaixo dos gritos de desespero que ela soltava, e que não tardaram a transformar-se em gritos de dor. Cá fora, e do outro lado da rua, ele olhou para o incêndio, e ficou a ouvi-la. Os gritos conseguia ecoar pela noite adentro, mas assim que atingiram o seu auge, começaram a fraquejar, até que já não era possível ouvi-la.
            Não tardou para que o próprio bar acabasse por ceder à intensidade das chamas, e quando tal aconteceu, ele voltou-se e seguiu o seu caminho, sem primeiro deixar cair uma lágrima no passeio.

            

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A__R

Neste hábito vivemos
De eleger datas
Para demonstrar sentimentos
Que não precisam de alturas exactas
Para ser demonstrados
Mas sim bradados
Todos os dias de todo o ano
Pelos nossos quatro cantos.

Para quê arruinar este romântico sentimento
Dedicando-lhe um certo tempo,
Tempo esse que não é aproveitado
Pois quem o devia fazer
Apenas se lembra dele no dia ditado
Deixando a outra pessoa num quase esquecimento
Não num único instante
Mas sim num interminável momento.

Não é só o tempo que destrói o sentimento
Mas a forma como o mesmo é tratado.
Morto está quase o romance
O pilar chave desta bela face
Esquecido pela maior das vontades
Por um mundo de míseros rebeldes
Que apenas ligam ao prazer da carne
E cuja morte seria um prazer dar-me

Nós, romântico povo
E de igualmente romântica língua,
Lidamos agora com algo novo
Apodrecido em toda a linha,
E sem qualquer digno valor solto
E que na ignorância fica
Não exibindo nada que impeça
A sua animalesca natureza

As minhas palavras de nada servem
E o que faço já não é visto como era.
De nada servem e os sonhos que esperem
Pois a solidão impera
Tal como o seu depressivo irmão
Que corrói a alma
E o corpo são
Deixando apenas um monte de nada.

Esperançoso me farei acompanhar de poesia
E também de histórias românticas
Esperando pelo dia
Que se volte a respeitar estas semânticas
Pois são elas que fazem deste sentimento
Muito mais que um simples momento
Fazendo-o estender-se pela eternidade
Por palavras e por cordas me expresso
Dizendo com pouco sentido
Tudo aquilo em que penso
E com pouco sentido porque não costuma ser ouvido
Por ser uma raça em vias de extinção
Algo mais que uma simples face na multidão

Mas nada interessa
Se é que alguma vez interessou.
Não interessa o quanto eu peça
O meu mundo nunca mudou.
Palavras desperdiçadas
Apenas pelas paredes apreciadas,
A fazer dos peixes lembrar
Mas o sentido não deixa de acertar.

Dou por mim assim
Debaixo do som da minha melodia
E das palavras tecladas por mim.
Cabe-lhes a elas sentir o que eu sentia
E que vi chegar ao fim.
Essa é a tarefa que lhes dei
Porque esses dons em mim morreram.
Não temo enquanto as trevas consomem a vida que optei
Porque os demónios nunca choram.











Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

sábado, 25 de janeiro de 2014

         A noite já vai longa. Contemplo o céu estrelado neste banco à beira rio, iluminado pelas inúmeras estrelas. Os meus pés batem paciente e ritmadamente no chão de pedra lisa. Olho para o relógio, quase 3 da manhã e não há sinais dele. Atrasado como sempre, é o que eu penso, e em mais podia eu pensar, se não estivesse já farto de o fazer. É o que tenho feito desde sempre, é o que me tem destruído por dentro, e o que me trouxe de volta para me destruir novamente.
            Levo as mãos à cabeça enquanto as imagens e os tempos voltam a mim. Apoio a cabeça nelas e os cotovelos nos joelhos, contemplando o nada, a escuridão, ou pelo menos assim queria eu que fosse. Suspiro ruidosamente à espera que passe, e essa mesma postura eu não abandono.
            Oiço passos, mas não levanto os olhos para ver quem era.
            - Vejo que estás à minha espera – disse ele.
            - Não estou sempre? – perguntei eu, ainda com a cara mergulhada nas mãos.
            - Tinha coisas para fazer – continuou ele, avançando e sentando-se ao meu lado.
            - Como sempre.
            - Eu pensava que isso já tinha passado.
            - Eu também.
            Ficámos em silêncio por alguns segundos, até que ele perguntou:
            - E qual é o plano agora?
            - O que te parece?
            Reparei que ele ficou a olhar para mim seriamente, ou melhor, uma surpresa séria, como se não acreditasse que lhe estava a pedir aquilo.
            - E eu a pensar que não vias essas coisas com bons olhos.
            - Tecnicamente seria um homicídio e não um suicídio.
            - Mais um homicídio a pedido que outra coisa.
            - Mas ias ser tu a premir o gatilho e não eu.
            - É verdade.
            - Não te agrada a ideia?
            - A questão está longe de ser essa.
            - Vais estar com moralismos agora?
            - Queres que esteja?
            - Não, obrigado.
            Seguiu-se mais um momento de silêncio, desta vez bem mais longo, em que ele nada fez a não ser olhar para mim ou para o horizonte, enquanto eu continuava com a cara mergulhada nas mãos.
            Senti um clarão, rapidamente seguido pelo som de um trovão. Segundos depois comecei a sentir tímidas gotas de chuva a caírem-me na nuca.
            - Parece que vem aí uma tempestade – disse ele.
            - Não podíamos ter escolhido um momento melhor.
            - Se estás à procura de uma morte poética, sim, dificilmente arranjarias algo melhor.
            - Vamos acabar com isto de uma vez por todas.
            - De certeza?
            Dei por mim a pensar. Seria mesmo isto que eu queria? Não haveria uma outra solução? Não seria possível resolver este problema sem ser desta forma? Será… já chega…
            - Sim.
            - Muito bem.
            Ele levantou-se e colocou-se diante de mim. Como que se apercebendo do que estava prestes a acontecer, a mãe natureza pareceu querer demonstrar a sua pena, fazendo com que a chuva caísse com maior intensidade. Ouvi o som de um casaco ser afastado e o de uma pistola a ser removida do seu coldre.
            - Vais querer ficar assim?
            - Não – respondi eu, levantando a cabeça e encostando-me ao banco do jardim, olhando para aquela figura com o rosto tapado por óculos escuros, um cachecol e um capuz – tenciono morrer com alguma dignidade.
            - Foi um prazer.
            - O prazer é todo o meu.
            Vi um clarão ao fundo, mesmo por detrás da figura, e não tardou a seguir-se o som de uma bala a ser disparada, abafado pelo som de mais um trovão.

            Enfim paz.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

           Há quem diga que não se pode estar pronto para lidar com a morte de alguém, mas tal é possível e encontra-se ao alcance de qualquer um, bastando apenas mentalizar-se que é algo que irá acontecer mais cedo ou mais tarde. Ainda assim é natural o choque e os sentimentos resultantes que se manifestam nos dias seguintes, marcados logos por uma nova rotina que já não pode contar com essa pessoa.
            Esse dia acabou por chegar, e aqui me vejo, a contemplar todo o funeral. Ainda me deixa atónito a quantidade de pessoas que decidiu comparecer. Olho em volta e para os portões. Cada vez são mais os que os atravessam. Talvez preferisse assistir a tudo de uma forma mais discreta, talvez num canto com uma boa visibilidade, mas o mar de gente arrastou-me para aqui para a linha da frente. Sem dúvida alguma foi-me concedido o melhor lugar. As palavras do padre embalam-me enquanto contemplo pensativo os dois caixões de madeira de carvalho envernizada que estão prestes a ser enterrados. Ainda pensei em não comparecer, mas achei que devia dirigir-lhes um último obrigado, esforçando-me para estar presente e contemplando-os em silêncio. Devo-lhes muito e isso é certo, aliás, não só é certo como claramente visível. Parece que a sua existência não foi significativa só para mim, e as lágrimas de uns e de outros são a prova viva disso.
            As despedidas são feitas e perguntam se alguém está disposto a dar umas últimas palavras. Talvez eu fosse a pessoa mais indicada, mas optei por me remeter ao silêncio. Ninguém se voluntariou e ninguém reparou que eu lá estava. Porque é que haveriam de o fazer?

            Chegou a hora de devolver os caixões à terra. Vários homens agarram neles e mergulha-nos delicadamente nos seus locais de repouso enquanto o som de inúmeros prantos se intensifica e ecoa por todo o espaço. Talvez devesse segui-los, mas nada sinto. Talvez seja verdade o que dizem, que as lágrimas são um dom a que apenas os humanos têm o direito… e que os demónios nunca choram.


Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

         Nós, seres humanos, desde o início dos tempos, temos questionado o porquê de toda a nossa existência, e todas as explicações possíveis residem em duas massivas teorias: criacionismo e evolucionismo. Todos sabemos em que é que elas assentam e defendem até aos dentes, os vários conflitos entre ambas e o sambe derramado que deles sucedeu. Contudo, nos tempos que correm parece existir uma certa harmonia, havendo inclusive estudos científicos de obras religiosas. Não procuro falar de ciência, mas sim, talvez, filosofar um pouco. Todos conhecemos os três níveis que nos esperam após a chegada da nossa hora. Todos sabemos no que cada um consiste, nem que seja uma definição que nos surja através do seu próprio nome. Porém, como serão eles realmente? Serão iguais para todos, ou cada um viverá o seu? O percurso já foi traçado uma vez em séculos já idos, e mudou totalmente a visão que o mundo tinha destas paisagens.
            Pretendo voltar a seguir o mesmo percurso. Já entrei a colossal entrada com as célebres palavras “Deixai toda a esperança, vós que entrais”. Examino-a durante tempo incerto. Um guia não me aparece. Talvez surja durante o percurso, ou simplesmente terei de o percorrer sozinho, e assim mesmo enfrentar os horrores que aqui se escondem.
            Sigo em frente e começo a desce a gruta escura como o breu, usando o meu tacto e avançando cautelosamente para não cair rumo ao desconhecido. Estão mais intensos os gritos de dor e os lamentos que já ouvia no exterior. Sentir um arrepio na espinha foi inevitável, principalmente quando comecei a sentir gargalhadas que de certo não eram humanas. Para o que se seguiu, bastou um passo em falso. A terra que me suportava desabou, e dei por mim a escorregar por ali abaixo. Não sei como não gritei, talvez tivesse deduzido inconscientemente que seria melhor não o fazer para não atrair atenções indesejadas.
            Do nada gigantescas chamas surgiram perante mim, quase cegando os meus olhos já habituados às trevas, e decerto que me teriam queimado vivo se tivesse a passar de pé. Logo a seguir a elas o chão acabou, e instintivamente rodopiei para me agarrar a alguma coisa, e acabei por me agarrar a uma berma, ficando suspenso apenas por uma mão, a balançar de um lado para o outro. Segurei-me com a outra para recuperar o fôlego, e dados os gritos e gargalhadas ensurdecedores, o intenso calor que se fazia sentir e a minha curiosidade, olhei para baixo. Nunca vai tão horrendo espectáculo. Milhares de corpos contorciam-se de dor, esquartejados, torturados, violados e devorados por todos os tipos de demónios. A mais actos assisti, mas não faço a mínima ideia que eram. As minhas narinas foram assoladas pelos cheiros nauseabundos de carne podre, sangue e excrementos, tudo misturado em algo tão intensamente nojento que ia perdendo as minhas forças. Esforcei-me para subir, e lá consegui. Levantei-me e limpei a terra das minhas roupas. Aproximei-me da berma e voltei a olhar para baixo. Foi bastante fácil reconhecer o circulo da Luxúria, da Gula e da Ganância. Respectivamente, os corpos desnudados que outrora viviam apenas do prazer carnal, corpos inchados a chafurdar de barriga para baixo e de boca aberta nos dejectos que resultaram da sua abundante e interminável fome, e as almas a banharem-se em ouro derretido.
            Afastei-me da berma. Fechei os olhos e inspirei fundo. Olhei em frente para o negro rio que mais não podia ser que o rio Aqueronte, onde o macabro barco de Caronte me aguardava, a mim, e mais umas pobres (ou nem tanto) almas.

            Bem-vindos ao meu Inferno.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

            - Porque é que me chamaste?
            - Ainda tens a lata de me perguntar isso?
            Do interior do seu capuz negro e corroído, lançou-me um olhar que seria capaz de arrepiar e até mesmo de despedaçar qualquer espinha, mas não a minha.
            - Devias ter mais cuidado com as palavras que usas.
            - Há alguma razão para isso?
            Começou a grunhir e os seus ossos a estalar por força da minha falta de respeito, e falou mais uma vez, na sua voz vazia e distorcida.
            - Eu exijo respeito!
            - Tens uma moral desgraçada para falar.
            - SILÊNCIO!
            E no fim deste berro atirou a sua foice na minha direcção, cravando o chão mesmo mesmo à minha frente, a poucos centímetros dos meus pés.
            - Esperas que isso me meta medo? – perguntei eu, olhando e colossal foice de cima abaixo – estás assim tão desesperada por respeito ou o que quer que seja que procuras?
            Nada disse, mas também não deixei.
            - Deixa-me dizer-te uma coisa e é precisamente por isso que te chamei… O QUE RAIO PENSAS QUE ESTÁS A FAZER?! Se não estou em erro era suposto tu levares quem merece ser levado, não quem tem ainda tem muito para dar e pessoas de quem cuidar!
            - Eu continuo a fazer o que me compete.
            - Então deixa-me dizer-te que precisas de arranjar uma nova carreira e depressa.
            - Eu não vou tolerar mais faltas de respeito! Um mero mortal acha que me consegue substituir? Blasfémia!
            - Eu não acho, eu tenho a certeza. Não sei o quão bem me conheces, mas dada a tua ignorância, duvido que seja algo que vá para lá do meu nome. Não vale a pena explicar-te filosofias de vida e seus propósitos, se milhares de anos não te meteram juízo na cabeça, não vão ser as minhas palavras que o vão fazer. Ainda assim, vou tentar ser o mais simples e claro para ver se entra alguma coisa nessa cabeça dura. Temos dois tipos de pessoas: os parasitas que vivem à custa dos outros e só estão bem a fazer a vida deles num Inferno, os inocentes, que simplesmente procuram viver uma vida pacata e ajudando quem pode. É suposto tu tratares dos primeiros, não dos segundos!
            - Continuo a levar quem merece ser levado. Assim tem sido desde o início dos tempos.
            - Então ainda fico mais admirado por ninguém te ter despedido.
            Olhou para mim em silêncio por alguns segundos, até que:
            - Tomar a tua alma vai dar-me imenso prazer.
            - E porque não a tomas já? – perguntei eu, abrindo-lhe os braços – vá lá, faz de mim uma mensagem. Mostra a toda a gente que não se podem meter contigo se não vão desta para melhor. Vá lá, estás à espera do quê? De um convite por escrito?!
            Tomou novamente a sua foice, e eu avancei decidido na sua direcção, dizendo a cada passo:
            - Estás à espera do quê? Vá lá, mostra-me do que vales!    
Quando dei por mim, já estava diante dela, tão perto que podia sentir o seu bafo gelado.
- Infelizmente a tua hora ainda não chegou.
- Agora é por horas? Essa é boa.
- Mas o prazer vai continuar a ser todo meu… e ainda assim – distorceu um sorriso – é um tanto ou quanto interessante ver-te a defender a vida de alguns cuja morte tu mais desejas.
- Antes de ser humano sou um animal, e esse tipo de desejos são normais. Ainda assim, e se não estiveres satisfeita com esta resposta, estás a referir-te a uma parte de mim que já não existe.
- Tenho as minhas dúvidas.
Encostei a minha cara à dela, e continuei:
- Estás a meter-te com a pessoa errada, e se continuares com esta palhaçada, eu vou-te mostrar o porquê… e vou fazer muito mais do que tomar o teu lugar, para ser sincero, não o quero para nada, mas vou adorar humilhar-te e escapar ao teu toque.
- Sabes muito bem que isso é impossível. Mais cedo ou mais tarde a tua alma será minha.
- Tanto quanto sei, posso dá-la a alguém que não tu, e isso quereria dizer que a única coisa que irias encontrar seria o meu corpo a apodrecer, a sorrir e mostrar-te o dedo do meio.
Agora o sorriso tinha desaparecido:
- Vá lá, porque é que não me calas de vês? – perguntei eu, sorrindo.
- Terá que ficar para outra altura. Coisas mais importantes chamam a minha atenção.
E dizendo isto, abriu as suas esqueléticas asas e subiu lentamente pelo abismo em que nos tínhamos encontrado.
- Eu vou estar de olho em ti e tenciono cumprir tudo o que disse! Podes falar com os teus irmãos, não me importo, e se te encontrares com o Lúcifer, diz-lhe que eu digo olá.
Como a Morte funciona nunca iremos compreender. Será sempre visto como algo atroz e injustificado, havendo sempre quem diga que aconteceu por bem principalmente quando alguém está em pleno e puro sofrimento. Ainda assim, continua a não haver justiça, em nenhum dos mundos mesmo, pois quem realmente merece partir, está vivo e a transformar este mundo num verdadeiro Inferno.