terça-feira, 29 de maio de 2012

O outro lado da psicose


Curiosa estrutura a nossa mente.
Algo complexo e igualmente elementar,
E capaz de deixar qualquer um demente
Se dela não cuidar.

Por ser frágil,
Basta uma pequena mudança
Para se perder uma vida fácil
E ganhar uma atribulada dança.

Basta perder alguém,
Conter desilusões e problemas,
E sabe-se lá o que mais vem,
Visto que cada um tem os seus dilemas.

Começa com um leve desconforto,
E culmina com a presença constante,
E quase sempre a dar para o torto,
De um outro que se quer livrar de alguma gente.

Por mais hediondo que possa parecer,
Pode ser interessante assim viver.
Existe um alguém sempre disposto a conviver,
E diferente daqueles que podemos conhecer.

Não há razões para temer.
Este mundo não é nenhuma ternura,
E o facto de nele viver
Faz com que cada um tenha a sua loucura.











Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

sábado, 10 de março de 2012

Que os jogos comecem


Numa destas noites decidi fugir a rotina do dia-a-dia procurando uma qualquer actividade capaz de satisfazer os meus gostos.
Deparei-me com uma peça de teatro e fiquei, de certa forma, animado. Ao menos tratava-se de algo capaz de transmitir um pouco de cultura.
Toda ela homenageava a mulher, não tivesse o dia da mulher surgido há poucos dias, e ao ver as várias imagens de mulheres a serem tratadas como objectos de prazer e como sacos de pancada, ao ver rostos distorcidos por apedrejamento, fogo e ácido, ao olhar aqueles olhos que silenciosamente gritavam de dor, consegui ver as próprias cenas, vi as pedras a serem arremessadas contra o meu rosto, o fogo a ser-me ateado e o ácido a ser-me derramado. Senti a minha dignidade como ser humano a desaparecer enquanto aquela mistura de dor me consumia o que resta do meu corpo.
Contudo, apesar do que senti, os rostos das imagens que eram projectadas foram quem realmente sofreu, enquanto que eu apenas senti uma porção, mas o suficiente para querer mudar as coisas.
De momento encontro-me enclausurado, pelo que só poderei passar os meus planos em prática daqui a alguns anos, mas nada me impede de praticar.
Irei caçar esses bastardos inglórios e fazê-los pagar pelo sofrimento que causaram às mulheres em que tocaram! Irei persegui-los um a um, a começar pelos lacaios e subir pela cadeia alimentar até ter a certeza que mais ninguém irá sofrer!
Se formos a esperar que a lei defenda estas pobres almas, outros milhares perecerão, e mesmo que se chegue a uma decisão, será tarde demais.
A lei foi feita pelo Homem, e é por isso que é imperfeita e difícil de se confiar.
Aqueles que causam este sofrimento atroz não passam de animais, e serão abatidos como tal.
Será apenas uma questão de tempo.

Death Master   

sexta-feira, 2 de março de 2012

Demasiado tempo livre


Estou a ver que ando a gastar demasiado tempo a escrever do que a andar no terreno a limpar as ruas.
Começo também a achar esta actividade deveras interessante, e sempre ajuda a reflectir sobre os assuntos que vejo nas notícias e as conversas que oiço quando decido dar uma volta por aí.
As preocupações de agora são de tal maneira ridículas que se torna uma tarefa hercúlea não me desfazer a rir à frente de toda a gente.
Quem é que no seu perfeito juízo assume o fim do mundo com base num qualquer insulto numa qualquer rede social, acha deveras importante a vida de outrem, e defende que cultura geral é um desperdício de tempo? E no fim eu é que sou insano…
O comodismo e os media são o mesmo que políticos em tempos de eleições, parecem conferir apenas vantagens, até que são postos em prática.
O comodismo torna as pessoas preguiçosas e dá-lhes a falsa esperança de que alguém vai resolver os problemas todinhos, conferindo aos seus crânios um aspecto mais que oco, e os media funcionam tão bem que às vezes se atrapalham no que dizem, podendo até mesmo ter como fonte a sua própria imaginação.
O que seria deste mundo se essas pessoas que vivem de futilidades desaparecessem de um dia para o outro? Pode ser algo bastante improvável, mas um homem pode sempre sonhar… e por falar nisso, está na hora de… ir apanhar ar fresco.

Death Master

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um animal enjaulado


O que é isso de liberdade?
O que é ao certo?
Todos procuram a sua igualdade
E tê-la sempre por perto.

Mas será ela realmente possível?
Será possível ir para além da física,
Ir para além do incrível,
E ignorar a nossa própria química?

Foi possível descobrir mundos.
Mas a Terra ficou pequena.
Procuraram-se então outros mais ou menos moribundos,
Mas ainda hoje não se mudou de cena.

Com o tempo será possível viver neles,
Mas não será possível fugir de nós.
A vida de um pode ser reles,
E mesmo uma boa imaginação vai deixá-lo a sós.

Pode-se sonhar com mundos que não existem,
Falar com pessoas imaginárias,
E quiçá, crianças com elas se criem,
Mas jamais mudarão as realidades solitárias.

A imaginação desaparece,
E a solidão retorna,
Tal como uma prece
Indesejada que todos transtorna.

Aquilo que o cansaço faz a uma pessoa.
Tudo parece mais nítido,
E igualmente dito à toa,
Podendo ao mesmo tempo ter ou não sentido.

Mas cada um tem a sua cela,
Nuns o ego, a ganância, ou a aparência,
E noutros os outros, ou uma demência maior que ela,
Mas todos se enjaulam com uma certa frequência.


Talvez seja o escritor quem mais o faça.
Desabafar com as folhas
Porque não arranja quem faça
Esquecer as más escolhas.

É estranho e ao mesmo tempo singular
Pensar nas nossas personagens como mais humanas
Que os humanos com que temos que partilhar
As nossas memórias quotidianas.

Pode achar-se o método do escritor
Algo estúpido ou até mesmo inútil.
Mas ele escreve sem pudor,
E, sempre que pode, a insultar a vida fútil.

Talvez seja este o método certo,
Enjaular-se com palavras que nos compreendem,
Em vez dos que temos por perto,
E que pela diversão mentem.

Já se sabe qual é a jaula do escritor,
Um escravo da sua personagem pura,
Mas quanto ao leitor,
Qual é a sua?







Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

domingo, 1 de janeiro de 2012


           Ao abrir os meus olhos vejo um telhado velho suportado por fortes e enferrujadas vigas iluminadas por tímidas luzes que não sabem se devem estar ligadas ou entregar-se à escuridão. Os meus olhos abrem-se lentamente como se tivessem sido atacados por uma enorme onda de cansaço, e demoro um bocado a ter uma imagem nítida do que me rodeia. Ao olhar melhor, apercebo-me que estou deitado no meio de dois carris de uma linha férrea. Em choque me encontro ao aperceber-me disto pois não me lembro de como vim aqui parar, mas tudo piora quando me levanto. Os meus membros não respondem com a mesma prontidão que lhes é habitual, e rapidamente descubro o porquê. Ao olhar para as minhas mãos cobertas pelas minhas negras luvas, vejo grossas gotas de sangue a pingar dos dedos até ao chão onde, um pouco por todo o meu redor, outros aglomerados de gotas de sangue que sei que é meu, descansam com a poeira. Ao levantar-me sinto, aqui e ali, outros tantos restos desse líquido vital a escorrerem até às extremidades para aos outros se juntarem, e era de esperar que todo o meu corpo gritasse de dor, mas nada sinto. Talvez porque o meu próprio coração está demasiado gelado para deixar qualquer outra parte do corpo sentir o que quer que seja. De qualquer das formas, ao pôr-me finalmente de pé, tomo consciência que alguns ossos e músculos estão fora do seu devido sítio, e se quiser navegar pelo estranho lugar em que me encontro, tenho que tratar deste problema. Começo a esticar cada membro até ter a certeza que tenho a mobilidade que me permite colocar determinado elemento no seu devido lugar, e não tardo a ouvir o eco dos meus ossos a estalar.

            Depois de chegar a um estado razoável, decido interessar-me um pouco mais pelo sítio onde estou. Não parece ser mais que uma velha estação de comboios abandonada, e por mais estranho que possa parecer, as únicas formas de acesso são o pequeno túnel que se abre nos dois lados, pois no sítio onde se devia esperar pelo comboio não há portas, apenas um banco de pedra. Ao olhar para o chão, e ignorando o meu sangue que a seu bel-prazer se espalhou por todo o lado, procuro pistas que me digam o que se passou ali. Vejo várias pegadas, e curiosamente, todas elas descrevem perfeitamente as botas que trago calçadas. Se eu andei por ali sozinho, como é que seria possível ter acordado como acordei?

            Ao ver que não encontro mais nada que me possa esclarecer, decido percorrer a linha férrea até a saída iluminada pelo luar, que seria a que estava atrás de mim quando me estava a levantar. Em poucos passos estou cá fora, e sinto a brisa do luar como se fosse uma tentativa da Natureza para curar as feridas que tão preguiçosamente se esforçam para manifestar qualquer indício de dor. Contudo, a brisa não está só, e sinto passos em corrida à minha direita. Volto-me, e sem qualquer explicação, sinto um vulto a colidir contra mim e a arremessar-me contra a parede mais próxima e para meu espanto, todo o meu corpo grita de dor, uma dor que me cega, uma dor que me imobiliza, uma dor agravada por todas as outras colisões que me atingem, quer nos meus braços e pernas que a todo o custo disponho para proteger as partes vitais, ou nelas mesmas. Ele diz algo, mas algo que não consigo compreender. A força não tarda a desaparecer e à mesma velocidade me torno nada mais que um imóvel saco de pancada que não tarda a ser atirado ao chão poeirento.

            Tento perceber o que se passou, agora que o meu agressor recuou para buscar algo e a dor se ia calando aos poucos, mas a nenhuma conclusão chego, a não ser que se não fizer algo não sobreviverei para contemplar outro dia. Ao tentar levantar-me vejo, uns metros mais à frente, um casal de namorados que decerto aproveitou o estado abandonado daquele lugar para mostrarem os seus afectos. O medo e o terror vê-se nos seus olhares, principalmente nela que se esconde atrás dele e lhe pede para fazer alguma coisa, algo que ele não faz por estar demasiado assustado.

            Ao olhar isto, não consigo evitar um sorriso, mas com ele, algo mais vem. Aquela demonstração de covardia incompetente cria em mim uma dose indescritível de raiva que não tarda a espalhar-se usando as minhas veias como meio de transporte, levando adrenalina com ela, e então começo a sentir o meu corpo a sarar. Ódio e amor fundem-se no meu humano corpo, e mesmo quando me parece que a fonte se esgotou, mais vem e começo a sentir-me prestes a explodir.

            Ele apercebe-se que me estou a levantar, e rapidamente pega no cano de aço que tem mais à mão, correndo o mais depressa possível até mim, e eu, que o espero, recebo-o de braços abertos. O cano de aço corta o ar na minha direcção, e eu paro-o usando apenas a minha mão direita, ironicamente, aquela que é um dos membros mais magoados, mas ainda assim, a ameaça é detida.

            Finalmente tenho o direito de ver quem me lançou tamanha investida. Contudo, um capuz, e um grosso lenço preto cobrem-lhe o rosto. A arma que me tentou atacar encontra-se com a cara do seu mestre que cambaleia surpreendido e desesperado por manter o disfarce intacto. A passo determinado aproximo-me e os papéis agora inverteram-se, pelo que foi uma questão de tempo até que ele parasse de oferecer qualquer resistência, tal como a dor que, apesar de intensa, era ignorada. Tiro-lhe a máscara, e mais uma vez o vejo. Olho-me nos olhos. Não como num espelho, mas sim num rosto distorcido e corroído. Ele tenta sorrir para mostrar a sua indiferença, mas sabe que não o consegue, e finalmente tudo é explicado. Ele é a causa de toda a dor, e por isso é que só a sentia quando ele estava por perto, mas também é a minha parte mais forte.

         Como poderei eu livrar-me de uma parte de mim? E após lançar esta pergunta aos meus pensamentos, uma luz aparece ao fundo do túnel, a luz da dianteira de um comboio que se aproximava. A todo o custo levo-o para o centro dos carris, e eu com ele. O comboio tenta afugentar-nos ruidosamente tal como qualquer um faria a qualquer animal que não quer na sua propriedade. Firme me coloco, embora ele lute para escapar, e ao saber que tal é impossível, pára, e estridentes gargalhadas são produzidas pelas suas cordas vocais. Ignoro-as e olho para o casal cujo terror no seu olhar é agora indescritível, e fecho os meus olhos, aguardando pelo impacto.

            Ao abrir os meus olhos vejo um tecto que me é familiar, aliás, vejo um espaço que me é todo ele familiar. Vejo a minha guitarra a um canto, os meus antigos textos a cobrir uma parede e que envelhecem ao mesmo passo que eu, ou talvez a um passo mais lento. Sem dúvida que estou no meu quarto, e deitado na minha cama, estranhamente, vestindo as mesmas roupas que tinha naquilo que pareceu ser nada mais que um sonho, mas mais limpas e sem quaisquer vestígios de uma única gota de sangue.

            Não tardo a sair da cama, e assim que o faço, a dor surge novamente, e desta vez não encontro feridas que a expliquem.
















Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

sábado, 24 de dezembro de 2011

Algo para aproveitar


Um novo tempo,
Uma mesma tradição.
Pode não existir a cem por cento,
Mas continua a surgir com prontidão.

É possível ver as ruas decoradas com alegria,
Algo que contagia quem por elas anda.
A explicação vai para além da magia
Que esta data todos encanta.

Fico feliz por quem as festeja,
Mas mais quando através dela outros ajudam,
Porque apesar do que se deseja,
As essenciais necessidades nunca mudam.

Aproveite-se ao máximo este dia,
E que se passe com quem mais se gosta.
Que se mantenha a sua moral insígnia,
E que a felicidade seja a sua maior proposta.





















Ass: Daniel Teixeira de Carvalho

Uma grande diferença


Olhem para eles.
Olhem para eles a andarem de um lado para o outro como se a sua vida estivesse em jogo.
Chega esta data natalícia e as personalidades alteram-se de tal forma que até eu fico surpreendido.
Ao vaguear pelas ruas, ou a descansar no telhado ou ao espreitar pela janela, o que mais vejo são pessoas carregadas com sacos, alguns dos quais parecem equivaler ao peso de quem os transporta.
É compreensível o porquê. É definido como dia de dar e receber, mas o que se esquecem é que essa expressão não se refere à faceta material da coisa, mas sim a algo que de palpável não tem nada.
Os produtos materiais oferecidos poderão muito bem vir a ser esquecidos e a deteriorarem-se com o passar dos anos, mas actos como ajudar o próximo são algo que se mantêm para todo o sempre, e é esse o verdadeiro significado desta data que foi mais uma das que padeceu ao materialismo.
Continuo a observá-las a andar de um lado para o outro, e no topo do sítio onde estou, olho-os com um certo desprezo, mas devido ao espírito da data, até alguém como eu se deixa influenciar, tal é a energia sentida.
É impossível não esboçar um sorriso, não pelo comportamento patético, mas sim por saber que é só uma questão de tempo até se aperceberem do verdadeiro porquê deste dia.
Enquanto tal não acontece, irei continuar o meu trabalho.

Death Master