sexta-feira, 27 de abril de 2018

(I)Real


Nas profundezas da realidade
É possível apurar
Que a mesma continua a estar
Dependente da projecção
Que faz dela verdade.

A realidade é real por si só,
Mas apenas com o significado
Que apenas por nós pode ser dado
É que então fica com o valor
Que remove qualquer dó.

De longe sequer pensar,
Ou até mesmo idealizar,
Que qualquer forma de ser e de estar,
Decorre alheia
À real forma de se preservar.

Enquanto esse valor não existe,
Enquanto nada se nutre pela realidade,
A mesma é desprovida de verdade,
Condenada à realidade
Da ilusão que em ser persiste.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Esperança no Caos


            Lembro-me de um homem que tinha tudo quanto se poderia desejar e vivia humildemente essa realidade. Não vangloriava o seu modo de vida e não o usava para se favorecer junto de quem quer que fosse. Apenas vivia satisfeito com a vida que tinha. E assim viveu até ao dia em que tudo lhe foi tirado.

            Naquilo que só poderia ser obra do divino, contemplou os Céus e proferiu toda a sua destruição como retribuição por lhe terem tirado aquilo que lhe era mais precioso. E com isso, numa torrente de ódio e de vingança, encobriu o céu, e uma idade de trevas pareceu alastrar-se pelo mundo.
            Não satisfeito, focou-se nos Infernos, e lançou-lhes o meu destino, como forma de garantir que mais ninguém viria a passar por aquilo que passou. Descendo à Terra, trespassou-a, e perdeu-se no seu núcleo que depois de aquecer como nunca tinha aquecido, acalmou.

            Anos passaram, e mais ninguém viu o homem. Muitos especulavam sobre o que lhe teria acontecido e onde estaria, mas ninguém se atrevia a tecer certezas. Contudo, apesar de ausente, a sua história estava mais que presente nas vidas de todos e da sua descendência.

            Lembro-me de uma rapariga que tinha tudo o que queria, e que subitamente se viu sem nada. E lembro-me que essa rapariga via naquele homem um amigo querido jamais esquecido.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Destinos


Três sãos as mulheres,
As musas por excelência,
Que fazem da sua missão,
Tecer qualquer vivência.

E tecer é o que elas fazem.
Com calma e determinação,
Tecem docemente
O fado da multidão.

Todas as vidas
Passam gentilmente pelo seu toque.
Aí elas guiam,
Para o final e derradeiro corte.

Alheias ao sofrimento causado elas estão,
Porque assim está delineado.
E a obra vai crescendo então,
Num crescendo de dor e de pecado.

Pensar não está na sua sina.
Não é essa a sua função.
Apenas deixar escrita
Na linha a fatídica união.

Mas conseguem elas ver
O meu profundo desejo,
De com as suas linhas prender
A fonte do seu fôlego?

Apertar e torcer
Até mais nada restar.
Cortar e decepar
Até a vida jorrar.

Faz apenas todo o sentido,
Que o sofrimento das Irmãs do Destino,
Esteja tanto no seu ofício,
Como no seu crepúsculo fatídico.

quinta-feira, 8 de março de 2018

No coração das cartas

           Muitos são os que visitam a minha tenda na procura de respostas aos seus mais variados problemas. Tu és apenas uma adição a esta lista que não me dou ao trabalho de contar. Por isso, não te preocupes nem te aflijas. As cartas não mordem. Muito pelo contrário. Toma esta cadeira e deixa que elas te falem.

            O Louco. Concluíste com um sucesso um novo ciclo. Um novo capítulo da tua vida está acabado e aquilo que és está cada vez mais cimentado. Parabéns! Ainda assim, esta conclusão leva a que uma nova busca surja, uma que será certamente imprevisível, mas necessária. Decisões terão que ser feitas no momento, pelo que alguma preparação deve ser tida em conta.

            O Mago. Aqui temos a preparação para o que está para vir. Apesar da imprevisibilidade que cobre o teu caminho e independentemente das adversidades que daí advirão, terás todas as ferramentas necessárias à tua disposição para levar a tua jornada a bom porto.

            A Morte. Interessante… claramente este ciclo que se fechou deixo-te emocionalmente em baixo. Um obstáculo que se mostrou difícil de ultrapassar, e que ainda assim conseguiste. Contudo, mais está para vir. Está nas tuas mãos livrares-te de tudo aquilo que te está a prejudicar, porque só assim conseguirás seguir em frente. E podes ter a certeza de que grande parte do que te irá conter se prende ao teu passado. Um sacrifício que terás que fazer para poder conhecer a verdadeira natureza do teu futuro.

            A leitura está feita. As cartas foram lançadas e as tuas dúvidas esclarecidas. Está agora nas tuas mãos decidir o que fazer com as respostas que te foram dadas. Apesar do resultado, podes encontrar conforto na ideia de que aqui estarei para tua próxima visita.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Profundos Desejos


             Todos temos os nossos segredos. Alguns vivem deles, ora colecionando-os, ora expondo-os. O meu maior segredo foi ambicionar saber tudo sobre tudo. Apesar das limitações que o meu cérebro impõe sobre mim, uma vez que a sua capacidade de conter informação é biologicamente limitada, nunca encarei este objectivo como inatingível.

            Para alguns isto pode não parecer um segredo, mas sim um simples sonho ambicioso como tantos outros. A questão é que nem todas as formas de conhecimento são transmitidas abertamente. Algumas, as mais interessantes, estão escondidas de tudo e de todos, e nalguns casos, são tidas como há muito esquecidas.

            Durante os meus anos de estudo, dei por mim a nutrir uma dependência por esta secreta ambição. Tinha que saber mais e mais, custasse o que tivesse que custar. Vasculhei bibliotecas fora de horas, subornei para aceder a registos privados, troquei favores por documentos… tudo para ter a minha sede saciada.

            O problema deste tipo de dependências é que tendem a agravar-se, pelo que História, Psicologia, Medicina, Matemática e as demais ciências, rapidamente deixaram de ter muito para oferecer. Perante a necessidade de algo mais, recorri às artes obscuras. O Oculto, e tudo aquilo que ele implica, tomou toda a minha atenção. Estudei Alquimia e tratei de procurar sintetizar as minhas próprias soluções, os meus próprios elementos. Estudei Tarologia, Cartomancia e toda uma outra série de formas de adivinhar o futuro, meu e dos outros. Mas nada foi capaz de chegar aos calcanhares de quando aprendi a entrar em contacto com outras entidades que habitam neste mesmo plano. Há muito que se pode aprender com quem esteve presente desde o momento da criação… principalmente se se chegar a um acordo.

            Um outro problema das dependências, das obsessões doentias, é que se não tivermos cuidado, elas acabarão por nos consumir. Apesar de tudo o que aprendi, apesar de tudo o que eu já devia saber e tomar como certo, não consegui resistir à tentação de assinar um contrato com alguém que prontamente mo apresentou em troca de todos os segredos que permitem a nossa existência. A essência, o auge daquilo que é o verdadeiro saber… como é que eu poderia recusar? O meu nome reluziu com um brilho vermelho escarlate assim que assinei aquela folha, e prontamente me vi a cumprir o meu maior desejo.

            Mas agora escrevo nestas páginas com uma outra entoação. Há coisas que é melhor não sabermos. Há portas que é melhor não abrir. Neste caso, não foi o que fiz, mas com quem. O contrato pedia muito mais do que eu poderia alguma vez imaginar, algo que fiquei a saber assim que o assinei.

            Escrevo nestas páginas consciente de que é a última coisa que alguma vez farei.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Marcas de Sacrifício


            Ainda é tudo muito confuso. O efeito da anestesia ainda está presente e as minhas ideias ainda não são minhas. Sinto apenas que estou amarrado a uma cama de hospital e que a luz do meu quarto parece queimar os meus olhos.

            Após os primeiros segundos de consciência, as memórias vão regressando, e tudo começa a fazer sentido. Os meus gritos alertaram um vizinho que chamou os bombeiros. Encontraram-me meio estendido no chão da minha sala quase que a nadar no meu próprio sangue. Perdi a consciência pela primeira vez assim que eles me tocaram.

            Acordei por momentos já no hospital, cercado por médicos e enfermeiros a murmurar indistintamente. Consegui apenas ouvir algo sobre tendências masoquistas. O flash de uma câmara fotográfica foi mais que suficiente para eu voltar a perder os sentidos.

            Apesar da medicação, sinto o meu corpo a gritar de dor por baixo das várias ligaduras que apertam todo o meu corpo. Os cortes foram profundos o suficiente para isso mesmo. Não é uma questão de masoquismo. Não tiro prazer nenhum disto. É uma questão de obrigação e nada mais. Tive que o fazer… transformar o meu corpo numa tela para runas e símbolos…

            Um preço que estou disposto a pagar para nos salvar a todos.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Purificação

         O que fazes quando tens algo assustador no teu núcleo? Algo com mente e vontade próprias. Com os seus próprios objectivos e ambições. Solta-lo para que todo o mundo e consequentemente tu venham a lidar com as consequências de tal acto, ou optas por fazer tudo o que estiver ao teu alcance para apaziguar a criatura que faz de ti o seu lar? Independentemente das opções, acabarás sempre por sair prejudicado.

            Na primeira, e atendendo à natureza do que realmente tens a querer ver e sentir o calor da luz do dia, tens toda uma série de punições que te serão impostas ou pelo meio onde vives ou por ti mesmo (tens o que é preciso para lidar com o que provocaste assim que a tua consciência regressar?). Na segunda, vais ter que arranjar algo para que nada saia, e o processo de descoberta pode ser deveras longo, com a certeza de uma contrapartida: vai ser sempre preciso mais e mais.

            Como é que se lida com um parasita? Algo que se alimenta de nós. Algo que precisa de nós para viver. Algo que não só reside em nós como faz parte nós. Só por causa disso, o extermínio fica fora de questão, a não ser que tomar a própria vida seja uma opção aceitável… e todos podemos imaginar o que aconteceu ao ponto de permitir tamanha consideração.

            Todos temos os nossos próprios demónios. São da nossa exclusiva responsabilidade, e nesse sentido cada um deve determinar qual a melhor maneira de lidar com os seus.

            Haverá sempre aqueles que quererão ver o mundo em ruínas, mas valerá a pena o custo?